Anais do 12º Congresso Internacional da Rede Unida
Suplemento Revista Saúde em Redes ISSN 2446-4813 v.2 n.1, Suplemento, 2016
O CUIDADO COM A SAÚDE DAS TRAVESTIS QUE SOFREM VIOLÊNCIA
Scharllet Machado De Gasperi, Martha Helena Teixeira de Souza
Última alteração: 2015-10-27
Resumo
INTRODUÇÃO: Travesti é uma pessoa do sexo biológico masculino que incorpora características físicas do sexo feminino, através de intervenções cirúrgicas e ingestão de hormônios, que se veste e porta-se de forma semelhante ao indivíduo do sexo feminino, porém, conservando o órgão sexual masculino (LIMA, 2013). As travestilidades no Brasil estão marcadas por uma recusa social dessa expressão de gênero, o que leva à situações de violência invisibilizadas, quando não toleradas que marcam de forma dramática muitas vidas. Travesti não é sinônimo de prostituição, entretanto, as situações de exclusão do espaço familiar e os abusos vivenciados na escola dificultam o acesso ao trabalho formal, sendo a prostituição a única alternativa. Há a necessidade de construção de um conhecimento sobre como as travestis profissionais do sexo vivem, seus riscos e suas estratégias de proteção e sobrevivência (SANTOS, 2007). Para tanto é imprescindível a percepção desses riscos, buscando construir com essa população estratégias de promoção e proteção de sua saúde. OBJETIVO: Compreender como travestis que se prostituem em Santa Maria/RS vivenciam a violência no seu cotidiano, visando uma reflexão do atendimento desta população nos serviços de saúde e a formação dos profissionais de saúde. METODOLOGIA: Trata-se de um estudo de natureza qualitativa, descritivo-exploratória, realizado com travestis que se prostituem em Santa Maria/RS. Participaram da pesquisa 49 travestis profissionais do sexo, maiores de 18 anos. A aceitação das interlocutoras foi efetivada com a leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos do Centro Universitário Franciscano com o número 017.2010.2 e atende a Resolução n 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Os dados foram coletados no período de maio a agosto de 2013 e foram obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas, que foram gravadas e transcritas com a autorização formal das entrevistadas. Para a coleta dos dados foram acessados os pontos de prostituição e residências de travestis. RESULTADOS E DISCUSSÕES: A maioria das travestis que participaram da pesquisa divide aluguel com outras travestis, espaços nos quais se identificam por “manas” – sendo uma constante o perambular na região pela busca dos “pensionatos”. Desde o início do trabalho de campo, observamos claramente a exposição à situações de violências físicas como uma constante no cotidiano das travestis. As travestis são também vítimas de ofensas verbais em diferentes contextos, como família, escola, pontos de prostituição, espaços públicos. As narrativas de nossas interlocutoras descrevem processos que, atuando contra a diferença dos corpos das travestis, implementam e naturalizam a violência nas famílias, nas escolas, nas delegacias e nos serviços de saúde. As falas das travestis fazem referência à violências que perpassam suas trajetórias, indicando um contexto que percebem como violento. A análise das falas levou a compreender que há um tema central que expressa como representam a violência vivenciada: ser diferente gera a violência. Para evitar a violência, esconder-se é uma palavra que as travestis conhecem bem. A maioria passa grande parte da vida em casa, omitindo documentos, só conseguindo subempregos e fugindo de constrangimentos (COUTO, 1999). Apesar de 100% das travestis entrevistadas relatarem vivências com situações de violência em diversos contextos, foi frequente ouvir que esses fatos eram tão incorporados em sua rotina que muitas vezes eram assumidos como “merecimento”. Autores mostraram que a violência que atinge travestis, sobretudo as que atuam como profissionais do sexo, é mais agressiva do que a que tende a vitimar outros homossexuais, particularmente os que não exibem os sinais de diferença no corpo (CARRARA, VIANA, 2006; PERES, 2005). As travestis vivenciam situações de opressão e discriminação desde quando suas escolhas e mudanças corporais começam a tornar-se conhecidas e comumente afastam-se da família e da escola. É dentro de casa e na própria família que o preconceito e a discriminação assumem características de crueldade, incluindo insultos, tratamentos compulsórios, humilhação, agressão física e até a expulsão do lar (MOTT ET al., 2002). Envoltas em violência, é natural que as travestis sintam em seus corpos as marcas da violência. Muitas situações narradas pelas interlocutoras descrevem ferimentos, os quais necessitariam cuidados, no entanto, foi comum elas evitarem os serviços públicos de saúde para esse atendimento. Na maioria dos casos, os serviços de saúde não rompem o ciclo da violência contra as travestis, pois os profissionais de saúde, não tiveram em sua formação ferramentas que lhes possibilitem compreender o universo travesti, (MULLER, KNAUTH, 2008). São muitos os problemas indicados pelas interlocutoras no atendimento à saúde das travestis, que ao contrário de atuar amenizando a violência, cuidando e acolhendo integral e equanimemente, os profissionais classificam as travestis em categorias rígidas, heteronormativas, por meio de mecanismos complexos de patologização, criminalização e exclusão. A saúde das travestis é relegada à automedicação ou à ação de “bombadeiras”, as travestis mais velhas, que adquiriram experiência em injetar silicone industrial. Portanto, não apenas os agravos causados pelas situações de violência fazem com que as travestis necessitem de cuidados com a saúde, a construção do corpo exige cuidados especiais. Os serviços de saúde tendem a organizar-se para uma clientela heterossexual, limitando possibilidades de atuação junto a pacientes LGBT. Em função dos desafios vivenciados por profissionais da saúde diante do cuidado com esta população, é que essa temática deve ser cada vez mais discutida ainda na graduação, possibilitando a comunidade acadêmica à visualização do processo saúde/doença em diferentes cenários e contextos e contribuindo para minimizar e combater qualquer forma de preconceito no processo formativo. CONSIDERAÇÕES FINAIS: As diversas formas de violência vivenciadas nas trajetórias das travestis interferem diretamente na sua saúde. Além de distanciá-las da família e das relações de parentesco, acabam por afastá-las das escolas e dos serviços de saúde, que replicam a violência. Verifica-se a necessidade de uma orientação sólida que prepare os acadêmicos para buscar conhecer a necessidade dessa população, tendo em vista os princípios do SUS. É preciso ampliar os espaços de discussões sobre o tema, envolvendo os profissionais e os serviços de saúde na busca de políticas públicas eficazes e que preparem os profissionais através da educação em saúde, para lidar com as diferentes necessidades desta parcela da população que necessita de um cuidado digno e de qualidade.
Palavras-chave
Travestis;Violência;Cuidados de Enfermagem.
Referências
CARRARA S, VIANNA ARB. Tá lá o corpo estendido no chão: a violência letal contra travestis no Rio de Janeiro. Physis, Rio de Janeiro. 2006; 16(2):233-49.
COUTO, ES. Transexualidade: o corpo em mutação. Salvador. Editora Grupo Gay da Bahia, 1999.
LIMA, CB. Narrativas da Aparência: a materialização do gênero no design de moda. In: Seminário Internacional Fazendo Gênero 10: Desafios Atuais dos Feminismos, 2013, Santa Catarina - Florianópolis. Seminário Internacional Fazendo Gênero 10: Desafios Atuais dos Feminismos, 2013. 12
MOTT L, CERQUEIRA MF, ALMEIDA C. O crime anti-homossexual no Brasil. Salvador: Grupo Gay da Bahia; 2002.
MULLER MI, KNAUTH DR. Desigualdades no SUS: o caso das travestis é „babado‟! Cadernos Ebape.Br. 2008 Jun; 6(2).
PERES WS. Subjetividade das travestis brasileiras: da vulnerabilidade da estigmatização à construção da cidadania [tese]. Rio de Janeiro: Universidade Estadual do Rio de Janeiro; 2005.
SANTOS, ASS. Corpo educado? Percepção do risco de contrair HIV e práticas educativas entre travestis Profissionais do Sexo [Dissertação mestrado].Universidade Federal da Bahia. Instituto de Saúde Coletiva, 2007.