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Diferentes sentidos de “apoio” em disputa: possíveis em construção – relato de experiência na Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro
Última alteração: 2015-11-27
Resumo
Em 2007 é criada uma coordenação da Política de Humanização na Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro com o intuito de realizar apoio institucional aos Hospitais Estaduais de Urgência e Emergência da Região Metropolitana do Estado. As unidades não apresentavam uma organização do atendimento que levasse em consideração o risco das pessoas, os fluxos estavam confusos, sem uma ambiência adequada, com profissionais insatisfeitos tanto com a gestão quanto com as condições de trabalho. Algumas ferramentas divulgadas pela Política Nacional de Humanização (PNH) possibilitaram propostas de Acolhimento com Classificação de Risco nas portas de entradas dos hospitais, obras de adequação das salas de atendimento das emergências por risco, e estabelecimento dos fluxos. Essas ações de “apoio” foram estruturadas com foco na realização das mudanças nas unidades, no entanto, o como fazer, de modo a participar a gestão e os trabalhadores não era questão em debate. Nesse sentido, entrava em disputa a compreensão sobre apoio institucional, não mais como prática ou movimento de suporte para uma construção coletiva junto aos gestores, trabalhadores e usuários, ou como modo de ampliação dos espaços de participação e transformação. Respaldados pelo gabinete, atravessados pelo tempo político, e não sem resistência, esse trabalho foi sendo construído junto às unidades, e com dificuldade deste ser composto em conjunto com a equipe gestora dos Hospitais Estaduais em nível central, frágil e em constante troca, assim como as direções das unidades. Somada a essa fragilidade de gestão, o RH foi uma tônica durante anos nessas unidades que tiveram que substituir cooperativados, por dois concursos temporários, fundação e OSS. Os apoiadores desses hospitais passaram a ser referência no estado para ajudar a realizar as melhorias das portas de entrada, ofertando capacitações e reorganização dos fluxos. Além disso, tentavam propor normatividades para garantir os espaços de envolvimento e participação das famílias, com garantia dos acompanhantes e ampliação dos espaços de visita nos hospitais. No entanto, por mais que dispositivos propostos pela PNH, esses pareciam ser temas de menor importância aos problemas que as unidades enfrentavam. A fragilidade das gestões estava em conseguir de forma coesa dar conta do cuidado, da organização do acesso de forma a ter uma atenção mais resolutiva, efetiva, dentro do tempo esperado, combatendo a superlotação e o abandono já tão naturalizado. A saída da gestão maior da SES nessa época foi a terceirização como via. Momentos anteriores a essa transição do modelo de gestão, experiências de grupos de trabalho com a construção de geografia e diagnóstico assistencial, implantação de kanban pela equipe de enfermagem para acompanhamento do tempo de internação das pessoas, discussão dos casos e construção de linhas de cuidado, trouxeram para o centro do debate o cuidado que as unidades vinham realizando. Além disso, o efeito vivenciado foi de maior envolvimento dos gestores e trabalhadores, o que poderíamos considerar uma dobra da experimentação do sentido de apoio por esta equipe. Em concomitante, o surgimento das UPAs e sua expansão por todo o território estadual, trouxe para o cenário a importância do apoio estadual aos municípios. Os apoiadores da humanização - solicitados para capacitarem sobre protocolo de classificação de risco, unidos ao grupo de apoiadores da atenção básica estadual, diante dos efeitos da entrada das UPAs nos territórios (da fragilização à leitura diagnóstica do funcionamento e das barreiras de acesso a atenção básica), propuseram maior diálogo junto as gestões municipais e suas equipes. Esse passo importante do apoio permitiu a aposta nos coletivos municipais de construção dos fluxos de cuidado às pessoas. A vivência compartilhada do apoio institucional aos municípios comprovou que poderia a SES ter outro lugar importante no desenvolvimento do SUS com os municípios, ao contrário do lugar burocrático, pouco implicado e fiscalizador de ações. Não é fácil aos apoiadores do estado compartilhar das angústias, gasturas e impotências das amarrações técnico políticos nos territórios. Com o tempo os deslocamentos provocados por oficinas de trabalho nas regiões com seus desdobramentos junto às equipes de atenção básica puderam ser caixa de ferramenta rica encorajadora na formação de grupos de trabalho regionais. No entanto, sem chão ainda sólido sobre o que seria o apoio institucional aos municípios, com a chegada da proposta do apoio pelo Ministério da Saúde, a partir do ano de 2011, e com sua segmentação instituída por redes temáticas e suas respectivas políticas (rede cegonha, rede de urgência e emergência, etc.), o apoio toma força como meio de construção regional junto aos municípios, tendendo a seguir os formatos das portarias com as formações dos grupos condutores estaduais e regionais e realização de diagnósticos, planos regionais e monitoramento. As agendas são tomadas pelos informes das novas portarias e os modos de angariar recurso, entretanto, estes não resultaram necessariamente em efetivação e mudança do cotidiano do cuidado na saúde. Dado esse cenário, muitas são as análises e os desafios. Não são os formatos de grupos condutores que garantem democratização, produção coletiva e mudança, nem são os recursos, e nem a instituição em si da função apoio. Há risco de encapsulamento aos formatos e as portarias, perdendo-se o foco nas singularidades dos territórios, e no envolvimento de todos com o cuidado a ser realizado em conjunto com os municípios e suas equipes. Nesse último ano em continuidade ao trabalho do apoio aos hospitais estaduais pela equipe de humanização da SES, e com a entrada das OSS, diferentes têm sido os desafios. Quando possível, o mergulho tem podido munir as equipes e gestões das unidades de ferramentas que podem melhorar a gestão do cuidado. Ainda são intensos, e em disputa, dentro da SES, os sentidos de apoio. O “tete a tete” com as pessoas nas unidades parecem ampliar a caixa de ferramenta desta equipe de modo que outros podem ser os modos de criação e desdobramento desse trabalho junto aos municípios e suas equipes nas regiões. Essa experiência tem permitido alçar voos junto a outras áreas da secretaria, a partir do encontro com pessoas, seus desejos e potências, ampliando espaço afetivo, de resistência, de criação e de diálogo e conversa com os movimentos sociais e municípios. Uma espécie de movimento-contágio vai se irrompendo entre algumas áreas e equipes da SES, organicamente vai se apoiando a criação de espaços e comitês de saúde junto à população e gestores. Em apoio à coordenação de Gestão Participativa e algumas áreas técnicas da atenção básica criou-se comitês como do Campo, Floresta e Águas, população LGBT, população Negra, Educação Popular em Saúde, grupo de trabalho de saúde dos adolescentes do Degase, população de Rua, pessoas em situação de violência, comitês de Promoção da Equidade e Participação Social Regionais, etc. Sobre o foco do cuidado, o apoio parece não precisar de ‘nome próprio’, é movimento de criação e reinvenção do corpo SES... e que assim seja...
Palavras-chave
gestão; apoio institucional; cuidado;