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Diferenças e desigualdades em um hospital de câncer no Rio de Janeiro: pensando o direito à saúde para pessoas portadoras de leucemia aguda
Última alteração: 2015-10-30
Resumo
APRESENTAÇÃO: O estudo tem como objetivo pensar o direito à Saúde de pessoas com leucemia aguda, a partir da experiência profissional vivenciada num importante hospital de câncer localizado no Rio de Janeiro. Partimos da ideia de que os trabalhos acadêmicos devem servir como meios de luta. Para Deleuze e Foucault, as teorias que inventamos, os livros que lemos e assim como as nossas pesquisas, são como ferramentas, e também “instrumentos que podemos e devemos utilizar para questionar e provocar rupturas nos modos instituídos de pensar, agir, sentir, perceber, enfim, viver.” (ALVARENGA FILHO, 2010, p. 120-121). Nesse sentido, pretendemos contribuir para rupturas no modo como vêm sendo desconsideradas as necessidades específicas dos usuários em relação ao tratamento supracitado. Desenvolvimento: De acordo com a Lei 8.080 “os níveis de saúde expressam a organização social e econômica do país, tendo a saúde como determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia (...)”, entre outros aspectos relacionados às condições de vida. No entanto, em nossa experiência, percebemos que a diferença do paciente com leucemia aguda e sua necessidade de permanecer próximo ao hospital devido às inúmeras seções de quimioterapia e seus riscos não está sendo considerada, no sentido de que essa necessidade seja objeto de ações e formulações de políticas voltadas a esses usuários. Ao contrário: as pessoas em tratamento nesse hospital chegam a permanecer internadas por meses consecutivos, mesmo tendo possibilidade de alta hospitalar para local próximo ao hospital.IMPACTOS PERCEBIDOS: Observou-se na atuação profissional que a situação de ausência de recursos materiais que impossibilitam moradia próxima ao hospital ou hospedagem leva essas pessoas com diagnóstico de leucemia a um sofrimento extremo, ou mesmo ao abandono do tratamento. Além disso, a sobrecarga emocional não só de pacientes como também dos familiares que acompanham é perceptível, considerando que o tratamento requer longa internação. Existe, ainda, um efeito cascata na dinâmica hospitalar, uma vez que um leito que pode atender a outros pacientes em situação de gravidade médica permanece ocupado. Nos últimos cinco anos, muitos estudos direcionados a pacientes adultos com neoplasias hematológicas agressivas foram publicados provando que é possível curar mais utilizando a abordagem pediátrica, bem mais intensa que os protocolos desenhados para adultos. As crianças em tratamento nesse hospital contam com o apoio de uma casa financiada por uma organização não governamental. Já os adultos, até o momento, não contam com um serviço de hospedagem que atenda suas necessidades. Com isso, a necessidade de moradia próxima ao hospital não vem sendo priorizada. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Pretende-se problematizar de que modo a não consideração da diferença do tratamento das pessoas com leucemia aguda vem contribuindo para reforçar as desigualdades produzidas por relações que reforçam a banalização da vida, desigualdade essa expressa também entre os que têm e os que não têm condições de moradia próxima ao hospital, de acordo com suas necessidades e especificidades ao longo do tratamento oncológico. É, portanto, necessário problematizar essa questão, caso contrário estar-se-ia desconsiderando todas as perdas acarretadas pelo adoecimento por câncer (trabalho, projetos de vida, etc.).
Palavras-chave
Direito à Saúde; Desigualdade; Oncologia.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Lei n.º 8.080/90 – Lei Orgânica da Saúde, 1990. In: Manual de Gestor SUS. Rio de Janeiro: Lidador, 1997.
ALVARENGA FILHO, José. Seguindo estrelas e alimentando utopias: o desabrochar das muitas pétalas. In: NÓRTE, Carlos Eduardo; MACIEIRA, Raiana; FURTADO, Ana Lúcia (orgs). FORMAÇÃO: ética, política e subjetividades na Psicologia. Rio de Janeiro: Conselho Regional de Psicologia, 2010.