Rede Unida, 12º Congresso Internacional da Rede Unida

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ESCOLHA DA VIA DE NASCIMENTO: fatores relatados por puérperas
Raquel Ramos Pinto do Nascimento, Sandra Lucia Arantes, Eunice Delgado Cameron de Souza, Ana Paula Assis Sales, Luciana Contrera

Última alteração: 2015-11-23

Resumo


INTRODUÇÃO: Na escalada de ações para superar a medicalização do parto e reduzir muitas intervenções na assistência obstétrica e cesáreas desnecessárias, a gestante precisa de acesso, oportunidade, participação e informação sobre o parto para livremente escolher a via de nascimento de sua preferência. Dessa forma, melhorar a saúde materna, facilitar o acesso das mulheres aos meios e serviços de saúde, ofertar assistência adequada e igualdade de oportunidades na utilização de cuidados de saúde, assim como, mudar o modelo de assistência ao parto (que tem contribuído para o excesso de cesáreas e a morbimortalidade maternal e infantil) são ações desejáveis e se apresentam como um grande desafio para o Brasil. É sabido que nenhuma dessas ações, isoladamente, será capaz de transformar o nascimento, um momento tão único e especial, se não for permitido à mulher analisar os riscos e benefícios para livremente optar pela via de nascimento de sua escolha, uma vez que o medo da dor, o tempo prolongado do processo de parturição, a desinformação e o poder de convencimento de que a cesárea é um ato seguro, influenciam sobremaneira nessa escolha. OBJETIVO: Conhecer os fatores relatados por puérperas que concorreram na escolha pela via de nascimento. MÉTODOS: Trata-se de um estudo transversal analítico com abordagem qualitativa na perspectiva teórica da Maternidade Segura, adotando o referencial metodológico de Lefèvre e Lefèvre, Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). Foi produzido como exigência para a obtenção do título de Especialista em Enfermagem Obstétrica, na modalidade de Residência (TCC), oferecido pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da UFMS (Parecer n° 789.863/2014), e Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 3148.0114.3.0000.0021. Desenvolvido com 25 puérperas internadas no Alojamento Conjunto do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, entre setembro e novembro de 2014. Utilizou-se a entrevista semiestruturada para a coleta de dados e o DSC para organizar e tabular os dados qualitativos de natureza verbal obtidos de depoimentos capturando os relatos dos sujeitos. RESULTADOS E DISCUSSÃO: Os DSC resultaram em três categorias e doze Ideias Centrais (IC): 1) Desejo pela via de nascimento realizada e suas quatro IC: “Desejei o parto normal, é bom e foi a melhor coisa que me aconteceu”; “Tentei o parto normal, mas não consegui”; “Quero fazer cesárea. Não quero sentir dor!”; “Esperava não ter complicação no parto e risco para o bebê”; 2) Respeito pela via de nascimento escolhida e suas duas IC: “Parto normal me dá liberdade, não preciso de muita ajuda”; Meu parto foi natural, tranquilo e, saudável”; 3) Fatores que concorreram na escolha e suas seis IC: “Meu parto seria tranquilo, normal como foram os outros”; “Eu já sabia como seria”; “Muitas pessoas contribuíram para a minha escolha”; “Os profissionais influenciaram a minha vontade”; “Eu não sabia nada e ia saber só na hora”; “Me informei por meio da internet”. A maioria das mulheres entrevistadas (76%) desejou parto normal devido à recuperação mais rápida, menor dor e sofrimento. Surgiram depoimentos carregados de sensações de alívio, realização, gratidão e êxtase, que somente a experiência do parto normal propicia. Contudo, 14 (56%) depoentes foram submetidas à cesárea justificada, em parte, pela caracterização institucional de referência para alto risco no contexto do município de Campo Grande, bem como, pela persistência do modelo biomédico no cenário de análise. Os depoimentos revelaram que a mulher assume a postura passiva, perdendo em parte o sentindo do protagonismo. A segunda categoria revelou que 40% preferiu parto normal, mas, foi submetida à cesárea, 36% foi contemplada pela sua preferência pelo parto normal e 20%, cesárea, respectivamente. Contrariando o modelo hospitalar e medicalizado predominante, as mulheres sinalizaram sua preferência pelo parto normal, mais natural e humanizado, contrapondo, por certo, ao parto operatório, muito praticado no Brasil e, em muitos casos, sem atender critérios e/ou classificações preconizadas na literatura médica nacional e internacional. Também, vários autores sustentam que para fazer escolha, são requeridos conhecimento e informação. Os discursos das puérperas mostraram que a tomada de decisão pela via de nascimento foi baseada em experiências anteriores, e a possibilidade de repetição da mesma via se daria tanto no parto normal quanto cesárea. Os fatores que concorreram na escolha da via de nascimento foram: influência da família, experiências prévias com parto, interação profissional-cliente e informações via internet. CONSIDERAÇÕES FINAIS: O estudo permitiu concluir que 76% dos sujeitos preferiram o parto normal. Tal preferência foi justificada pelo fato de ser um processo natural, ter uma recuperação pós-parto mais rápida, facilitando a locomoção e trabalho, além da possibilidade de realização dos cuidados com o bebê sem restrições. Foi evidenciado que experiências prévias com o parto, interferências familiares, interação profissional-cliente nas consultas pré-natais e fontes eletrônicas de informação influenciaram na escolha da via de nascimento. A elevada percentagem de partos cesáreos representa um grande desafio para a política de saúde, considerando os riscos desnecessários tanto para a mãe quanto para a criança, além da sua associação com a mortalidade materna e os custos adicionais para o sistema de saúde; especialmente quando a redução da mortalidade materna está associada à atenção qualificada ao parto, à assistência obstétrica de emergência e à impossibilidade do Brasil em atingir a meta do milênio de redução de 75% da mortalidade materna até 2015. A partir deste estudo, fica evidenciado que algumas ações podem ser desempenhadas pelo enfermeiro obstetra na Atenção Primária à Saúde. Como contribuição do estudo para a prática e teorização, pode-se sugerir: dar liberdade de escolha da via de nascimento às mulheres para o exercício da sua autonomia; valorizar a pessoa, sua história, herança e escolhas; fornecer informação; e promover experiências dialógicas entre a mulher e os profissionais de saúde. Nesta pesquisa, os depoimentos também evidenciaram que a comunicação profissional-paciente é unilateral, não facultando diálogo, privando as mulheres de explicações claras. Os sujeitos não tiveram acesso prévio às informações de forma clara e suficiente para fazer escolhas. Recomenda-se que os resultados deste estudo sejam ampliados para além do cenário ao qual se desenvolveu, considerando os determinantes sociais da saúde (DSS) dos sujeitos individuais e coletivos como base para o desenvolvimento e execução de políticas públicas de saúde, em consonância com os preceitos da Maternidade Segura. A realização de estudos comparativos em diferentes instituições e municípios, a partir da mesma metodologia, pode estabelecer uma nova perspectiva assistencial emancipatória durante a parturição. 

Palavras-chave


parto normal; cesárea; tomada de decisão; saúde da mulher.

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