Rede Unida, 12º Congresso Internacional da Rede Unida

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Cartografando multidões no sujeito com sofrimento psíquico
Gabriela Lucena Coutinho, Dilma Lucena de Oliveira, Juliana Sampaio, Adelle Conceição do Nascimento Souza, Thayane Pereira da Silva Ferreira

Última alteração: 2015-11-23

Resumo


Esse artigo, pensado a partir de inquietações levantadas pela RAC- rede nacional de avaliação compartilhada-realizado na cidade de João Pessoa nos períodos de maio/agosto de 2015, é uma pesquisa qualitativa que tem como finalidadea avaliação coletiva, envolvendo usuários e trabalhadores, da produção de cuidado das diversas redes do SUS. O artigo diz respeito à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), e foi feito a partir do trabalho de campo produzido no CAPSAD, usando como método o usuário guia, que funciona como uma espécie de “fio condutor” para avaliação e reflexão sobre o cuidado produzido. Inicialmente pedimos para os trabalhadores indicarem o usuário que consideravam mais difícil de cuidar. A ideia é que, precisamente por ser o mais “problemático”, esse usuário guia seria capaz de levantar reflexões e problematizar mais a questão do cuidado. Seguimos então os percursos traçados por ele - tanto os instituídos na rede como os fora dela - pensando-os a partir das “estações” de cuidado do sujeito. Depois de cada ida a campo produzia-se um diário de campo que era posto em discussão, sob a ótica da micropolítica e antipsiquiatria, com todo o resto do grupo, fazendo surgir inquietações e novos caminhos advindos das versatilidades dos encontros, pensando sempre em ressaltar os acessos e as barreiras que encontrávamos na produção do cuidado. Por indicação dos profissionais chegamos a um de nossos usuários guias que se convencionou chamar Vaqueiro. Os únicos moldes em que tanto os profissionais do CAPS e do PSF quanto a família conseguiam encaixá-lo era o de alcoólatra, agressivo, que gostava de desenhar e não queria ser cuidado. Mas a partir da ideia de que os sujeitos são constituídos por multidões e que, portanto, essa era uma visão muito limitada desse sujeito, buscamos refletir sobre quais métodos usar para conhecê-lo para além do diagnostico de alcoólatra, apontando para a criação de dispositivos que pensem outras possíveis formas de cuidado que vão além da medicalização, trabalhando com base na construção da autonomia e respeitando os desejos de ser do sujeito. Baseados, pois, na concepção de cartografia proposta pelo projeto Útero Urbe(da artista plástica Carolina Teixeira), pedimos para o usuário desenhar as rotas que percorreu na sua vida, direcionando-o em três questões: onde o sujeito se sente livre, onde se sente interditado, e onde encontra cuidado. A partir do olhar dele sobre a própria autonomia, esse usuário é capaz de inscrever sua história no mapa de João Pessoa e, se necessário, extrapolar os limites da cidade, desenhando e traçando o seu próprio território. Expondo suas vivências no território de papel o Vaqueiro pode revelar vários outros “eus”, apontando para outras possibilidades de ser que ultrapassam a questão do alcoolismo: o nadador, o dançarino, o vaqueiro, o pedreiro, o apaixonado.  Levando assim a pensar um cuidado que gera autonomia e empoderamento a partir de como o usuário se ver e deseja estar no mundo, para além do vício.

Palavras-chave


Cartografia- Sude Mental- Cuidado- Autonomia

Referências


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