Rede Unida, 12º Congresso Internacional da Rede Unida

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Inspirando a transformação: O coletivo InspiraSUS e a construção de um VER-SUS Interior do Paraná
Lina Gonçalves Lopes, Cristiane Mehl, Thais Rodrigues dos Santos, Angela Haiduk

Última alteração: 2015-11-02

Resumo


Este trabalho tem como objetivo contar a história do VER-SUS Interior do Paraná, que se originou como uma ação do Coletivo InspiraSUS. O Coletivo surgiu no ano de 2013 com o intuito de fomentar discussões sobre a saúde de forma ampliada no município de Irati - PR. Uma de suas metas era trazer o VER-SUS para o estado, aliando o Movimento Estudantil aos Movimentos Sociais da região. Alguns integrantes que formaram o Coletivo já haviam participado de outras vivências e nossa principal dificuldade era olhar para vivências já concretizadas e não conseguir encaixar o interior em formatos já conhecidos foi então no Congresso da Rede Unida 2014 que conseguimos entender que o VER-SUS era amplo e que, como o SUS, deveria acontecer e se efetivar levando em conta territórios e possibilidades. A partir disso, iniciamos nossa luta por um VER-SUS que representasse, de fato, nossa realidade, incluindo desde sua formulação os Movimentos Sociais, para que pudéssemos pensar juntos em formas de abranger os diversos modos de fazer saúde e suas várias concepções. Começamos do zero, e essa é a importância de ser um Coletivo. Corremos atrás de gestores, apoiadores e profissionais para que pudéssemos explicar a importância desta vivência. Para as duas experiências de VER-SUS que aqui relatamos docentes e instituições dos movimentos sociais, como por exemplo, o Instituto Equipe de Educadores Populares no VER-SUS Inverno 2014 e a Escola Latino Americana de Agroecologia juntamente com o Assentamento Constestado no Verão de 2015, foram primordiais para sua concretização. Eles acreditavam na nossa luta e abriram espaço não só para uma vivência de observação, abriram espaço para uma vivência de formação que com certeza dá a identidade para o nosso VER-SUS. As dificuldades de traçar um VER-SUS na realidade do interior vinha ao encontro do que presenciaríamos na vivência, como por exemplo, a extensão do território, as dificuldades de acesso, dificuldades com alimentação e notas em lugares longínquos, etc. Precisávamos sempre recorrer a Rede Unida para pensar junto em estratégias para que as burocracias não travassem nossa construção, muitas vezes, recorrer até para não ferir os ideais de nossa vivência, como por exemplo, a realização de um evento no faxinal onde a alimentação foi em totalidade agroecológica e as notas emitidas, em suas possibilidades, pelos próprios produtores.  Uma de nossas conquistas, fundamentais para concretizar o VER-SUS que idealizávamos, foi conseguir abrir vagas para viventes que não necessariamente estivessem vinculados à academia, mas que representassem algum Movimento Social. Além disso, em ambas as vivências que realizamos, no inverno de 2014 e no verão de 2015, priorizaram nossa estadia em alojamentos e planejamos o nosso cronograma de forma a abranger os Movimentos Sociais mais fortes da região, sendo incluídos: faxinalenses, agroecologistas, benzedeiras e curandeiros, quilombolas e o MST. Portanto, do dia 25/07/2014 ao dia 03/08/2014, realizamos nossa primeira vivência. Logo após a formação, que foi realizada com a participação de nossos apoiadores, nos dividimos em três grupos que puderam conhecer diversos dispositivos de saúde das cidades de Castro- PR, Prudentópolis- PR e Irati- PR, contando com a presença de três pessoas de Movimentos Sociais que nos mostraram a importância de flexibilizar o conhecimento acadêmico de modo a contemplar a participação deles. Os viventes além de conhecer o sistema de saúde de Castro conheceram a história dos quilombos e sua resistência, em Prudentópolis aproximaram-se das comunidades faxinalenses e em Irati das comunidades agroecológicas. Ao final, terminamos nossa vivência no faxinal do Marcondes, com a realização do I Tecendo Redes - Encontro Paranaense de Povos Tradicionais, com rodas de conversa sobre saberes e práticas, trocas de experiência, e feira agroecológica para enfatizar a importância do cuidado com a terra e com as sementes crioulas na garantia da qualidade de saúde daqueles povos. Do dia 30/01/2015 ao dia 08/02/2015, realizamos nosso VER-SUS verão na cidade da Lapa, na qual ficamos alojados no Assentamento do Contestado e aprendemos com eles sobre coletividade, responsabilidade pelo espaço e o cuidado com o outro. A vivência na cidade da Lapa, contou com um cronograma de visitas e discussões no território das comunidades com benzedeiras, faxinalenses e quilombolas. Em todas as nossas ações aproximamos as práticas dos saberes populares aos serviços de saúde da comunidade, como por exemplo, a realização de uma roda de conversa com benzedeiras que aconteceu dentro de uma unidade de saúde do território. Além das visitas e discussões, pudemos contar neste VER-SUS com uma formação voltada para as práticas de saúde, e para os movimentos sociais e estudantis. Destacamos a presença da discussão sobre saúde no assentamento, práticas no MST, saúde da população negra, conjunturas políticas do SUS, privatização da saúde e militâncias no contexto da saúde. Para estas falas contamos com nossos apoiadores que eram militantes da saúde, docentes, profissionais de saúde do Estado do Paraná e da gestora da Lapa que foi imprescindível para a contextualização do SUS no Brasil. Durante a visita aos espaços de saúde, questionávamos sempre sobre os saberes populares, a participação social e a presença de várias comunidades tradicionais no interior do município. Apesar das dificuldades, nosso VER-SUS sempre entendeu o quadrilátero da formação como algo que nos sustenta, por este motivo atentávamos para a importância de ter ensino, gestão, atenção e controle social na construção de nossa vivência. O movimento social representava acima de tudo o controle social, afinal o fazer saúde nas cidades interioranas precisa em primeiro lugar respeitar as peculiaridades e os modos de vida. Na nossa construção percebemos que era preciso ampliar ainda mais a nossa formação, era preciso olhar para a realidade da forma que ela estava se expondo, era abrir os olhos e escutar as vozes que muitas vezes falam e não são ouvidas. Aprendemos o sentido de saúde, aprendemos que saúde é sim, serviços, profissionais, equipamentos, medicamentos, mas aprendemos que a tecnologia mais importante, ou seja, a tecnologia leve está no agir do profissional junto com os benzedeiros, o pajé, o curandeiro, o sujeito que tem suas ervas medicinais no quintal de casa e entende com riqueza o seu território. Pudemos presenciar o fazer saúde no assentamento, onde a unidade de saúde era compartilhada pela equipe de saúde da família e pela equipe de saúde local que oferecia o benzimento, a auriculoterapia e a bioenergia. Com a construção deste VER-SUS entende-se que trabalhar em coletivo não é fácil, mas se aprende principalmente com o movimento social que nossa luta por um SUS universal, equitativo e integral não pode se esgotar porque precisamos garantir esses direitos também fora do papel. Entendemos o nosso VER-SUS, hoje em dia, muito mais rico do que quando sonhávamos com uma vivência que estava distante das nossas possibilidades. O Coletivo hoje é mais que apenas estudantes que sonham por uma formação melhor, o Coletivo hoje é composto por estudantes, movimentos sociais, docentes e tem como parceiros gestores e profissionais que militam que se sensibilizam com as variadas formas de se fazer saúde. O VER-SUS Interior Paraná nos mostrou que a vivência não serve apenas para formação, mas serve principalmente para aberturas de olhares e transformações, serve para mostrar a nossa possibilidade de cuidar. Cuidar da saúde, do saber, da terra, da cultura, do humano.

Palavras-chave


VER-SUS; Coletivo InspiraSUS; Saberes Populares; Participação Social

Referências


MERHY, E. E. Saúde: a cartografia do trabalho vivo. São Paulo: Hucitec, 2002.