Rede Unida, 12º Congresso Internacional da Rede Unida

Tamanho da fonte: 
A participação do PET-Saúde na reorganização de processos de trabalho em uma unidade de saúde
Marsam Alves de Teixeira, Rejane Malaggi, Arthur Alves de Teixeira, Luciana Barcellos Teixeira

Última alteração: 2015-10-29

Resumo


APRESENTAÇÃO: A Política Nacional de Atenção Básica define que a Atenção Básica em Saúde tem como característica um conjunto de ações voltadas ao indivíduo e coletividades, abrangendo promoção e proteção da saúde, prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução de danos e a manutenção da saúde. Nessa perspectiva, o Ministério da Saúde (MS) definiu a Estratégia de Saúde da Família como modelo de organização prioritário para a sua expansão e consolidação. O agentes Comunitários de Saúde (ACS), são  profissionais essenciais deste modelo de atenção estes têm dentre suas atribuições: trabalhar com adscrição de famílias; acompanhamento das famílias por  meio de visita domiciliar; desenvolver ações que busquem a integração entre a equipe de saúde e a população adscrita; desenvolver atividades de promoção da saúde, de prevenção das doenças e agravos e de vigilância à saúde. Ao considerar o trabalho desenvolvido pelo ACS como estratégico para o desenvolvimento das ações da equipe de saúde e ainda, observando uma série de limitações no processo de trabalho dos mesmos, apontados por uma equipe de uma Unidade de Saúde (US) no município de Porto Alegre, viu-se a necessidade de promover educação permanente como forma de reorganização do trabalho. O planejamento da educação permanente foi realizado com a ajuda dos monitores do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde), que buscou contribuir com a resolução dos nós críticos apontados nos processos de trabalho dos ACS. O PET-Saúde, inserido no Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde, consiste em romper com a formação tradicional de profissionais de saúde na perspectiva técnico-especialista de desarticulação entre teoria e prática, e avançar para uma formação mais próxima da realidade, em que os serviços de saúde se constituem em cenários de práticas para os alunos. DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO O presente trabalho se constitui de um relato de experiência,onde se descreve o impacto do PET-Saúde sobre os processos de trabalho dos ACS em uma Unidade de Saúde da Família no município de Porto Alegre/RS. As atividades de intervenção constituíram-se de ações de educação permanente divididas em dois módulos paralelos: um estruturado em teoria, baseado em estratégias motivacionais e discussão dos processos de trabalho, e outro mais voltado para a prática, com discussão de casos e seus respectivos encaminhamentos pensados na lógica do cuidado integral. O processo iniciou-se com a observação dos fluxos internos da unidade. Após duas semanas de observação participante e escuta atenta dos nós críticos identificados pelos profissionais da equipe, os monitores do PET/SAÚDE reconheceram a possibilidade de intervenção sobre vários aspectos dos processos de trabalho da unidade. O acesso dos usuários ao serviço era restrito, pois tinham que comparecer na unidade de saúde durante a madrugada na tentativa de garantir atendimento médico, pois este atendimento era realizado de acordo com a ordem de chegada, salvo os casos considerados de urgência. O acolhimento dos usuários era realizado somente pelos profissionais da enfermagem, que devido à sobrecarga de trabalho, tinham que atender os usuários de forma rápida e superficial, sem possibilidade de desenvolver um atendimento humanizado e de acordo com as diretrizes e os princípios do SUS. Apesar de serem considerados qualificados para suas funções, os monitores registraram situações específicas de desconhecimento de encaminhamentos e consequente falta de integração destes com o restante da equipe. A partir destas experiências é que se desenhou a proposta de intervenção do PET, incluindo estratégias de educação permanente com os ACS e demais membros da equipe. A complexa dinâmica do trabalho, a desgastante rotina da unidade e os ruídos decorrentes das inter-relações pessoais, demandaram um trabalho diário de aperfeiçoamento para que a equipe se tornasse coesa e cooperativa, trabalhando em prol do bem coletivo. A educação permanente é de suma importância para a renovação das práticas de saúde em busca da solução dos problemas advindos da comunidade.Nesta perspectiva, promovemos na equipe o levantamento das práticas de trabalho desenvolvidas e discutimos possibilidades de melhoria no processo de trabalho durante os momentos de educação permanente e diariamente nos mais variados espaços. São necessárias mudanças nas práticas de saúde, pois apesar da saúde da família possibilitar a construção de práticas de saúde mais solidárias e acolhedoras, ainda continua permeável ao modelo hegemônico que corrompe o processo de trabalho. Baseando-se nesse pressuposto, o grupo PET optou, num segundo módulo, por trabalhar o tema integralidade junto aos processos de trabalho discutidos no módulo anterior, na lógica da identificação de necessidades da população, observadas no cotidiano de trabalho dos ACS. Com o intuito de fomentar as discussões sobre cuidado integral e a relevância do trabalho do ACS, promoveu-se o aporte teórico sobre o conteúdo, intercalado com atividades práticas que, posteriormente, eram discutidas em rodas de conversas tendo os monitores do PET como facilitadores do processo de aprendizagem. A aprendizagem é produzida a partir das relações interpessoais, e entre estes atores e a própria natureza, não sendo originária apenas de reflexões individuais, entendemos que a presença de acadêmicos poderia enriquecer o aprendizado da equipe, visto o conhecimento científico recentemente aprendido na academia e suas consequentes discussões, que criam um espaço oportuno de trocas e reflexões fundamentais ao aprendizado. IMPACTOS Atualmente os ACS participam de diversas atividades dentro da unidade, porém, enfatizamos a importância da participação dos ACS na realização do acolhimento, pois sendo moradores do território e conhecendo as características locais e a realidade de vida de boa parte dos moradores, contribuem ainda mais com o fortalecimento da Política de Promoção da Equidade em Saúde. Cabe destacar que entre as principais dificuldades enfrentadas neste processo de mudança, foi a resistência dos ACS em desenvolver atividades internas e a dificuldade dos mesmos na definição e direcionamento de alguns casos, problema este que vem sendo trabalhado diariamente com a revisão do fluxo de encaminhamentos da demanda espontânea e demais rotinas da unidade junto à preceptoria do PET. CONSIDERAÇÕES FINAISO atual contexto dos serviços de saúde, representado pelas mudanças nos processos de trabalho e a incorporação de novas práticas neste setor, faz como que se torne necessária a participação ativa de cada agente envolvido neste processo para que a assistência aos usuários seja realizada de maneira satisfatória. As discussões levantadas a partir do movimento criado pelo PET, possibilitaram a mobilização dos ACS e o seu envolvimento com as atividades internas da equipe, qualificando o atendimento ao usuário, o fortalecimento do vínculo e reforçando o elo entre a equipe. O desenvolvimento da educação permanente rompeu com a prática mecanicista e nos levou a repensar rotinas e adotar uma conduta no sentido de todos assumirem a responsabilidade de agentes de transformação, promovendo um cuidado integral e humanizado aos usuários. A inserção de alunos nos serviços de saúde e o desenvolvimento de atividades de campo agregaram valor ao ensino e estimulam a educação permanente em saúde.  

Palavras-chave


PET-Saúde; Educação em saúde; Educação ensino-serviço

Referências


Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Manual Operacional da Segunda Etapa da Fase 2 do PROESF - Projeto de Expansão e Consolidação da Estratégia Saúde da Família. Brasília: Ministério da Saúde, 2012.

Programa Saúde da Família: ampliando a cobertura para consolidar a mudança do modelo de Atenção Básica. Rev. Bras. Saude Mater. Infant., Recife, v. 3, n. 1, Mar. 2003.   Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-38292003000100013&lng=en&nrm=iso. Acesso em 17 Ago. 2015.

Brasil. Lei nº 2488, de 21 de outubro de 2011. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes e normas para a organização da Atenção Básica, para a Estratégia Saúde da Família (ESF) e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS).Diário Oficial da União. Brasília, DF, 24 out. 2011. Disponível em: < http://brasilsus.com.br/legislacoes/gm/110154-2488.html. Acesso em: 18 Set. 2015.

Brasil. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde. Programa de Eduacação pelo Trabalho para a Saúde. Brasília, DF, 01 de mai. 2011. Disponível em: < http://www.prosaude.org/noticias/sem2011Pet/index.php. Acesso em 01 Set. 2015.

CECCIM RB, FEUERWERKER LCM. O quadrilátero da formação para a área da saúde: ensino, gestão, atenção e controle social. Physis (Rio de Janeiro( 2004),  v. 14, n. 1.   Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312004000100004&lng=en&nrm=iso. Acesso em  03 Out.  2015.

COSTA GD et al . Saúde da família: desafios no processo de reorientação do modelo assistencial. Rev. bras. enferm., (Brasília) 2009,  v. 62, n. 1. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672009000100017&lng=en&nrm=iso. Acesso em  02 Out.  2015.

MERHY EE, QUEIROZ MS. Saúde pública, rede básica e o sistema de saúde brasileiro. Cad. Saúde Pública (Rio de Janeiro) 1993, v. 9, n. 2. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X1993000200009&lng=en&nrm=iso. Acesso em  17  Ago.  2015.

BARRETO ICHC et al. Gestão participativa no SUS e a integração ensino, serviço e comunidade: a experiência da Liga de Saúde da Família, Fortaleza, CE. Saúde e Sociedade, [S.l.], v. 21, n. suppl.1, p. 80-93, mai. 2012. ISSN 1984-0470. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/sausoc/article/view/48771/52847. Acesso em: 27 Ago. 2015.