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Compreendendo e Combatendo o Bullying para a Promoção da Cultura de Paz nas escolas, a prevenção de Agravos à Saúde dos educandos e a garantia dos Direitos Humanos
Última alteração: 2015-11-24
Resumo
Muitas vezes, os jovens nas escolas são reduzidos a estereótipos que são construídos em relação a eles e que podem promover conflitos entre esses e o mundo adulto, bem como entre os próprios jovens. A sociedade cria ideologias e teorias para explicar essa diferença e justificar a discriminação. Fixa-se uma imagem social do outro que ao ressaltar a diferença, o transforma em problema social que assusta e incomoda. Nesse contexto, destaca-se o bullying escolar, que se manifesta através do bullying direto (agressões físicas e verbais) ou indireto (comentários discriminatórios e ou preconceituosos e exclusão de estudantes dos grupos de pares). Além de comprometer o rendimento escolar, as vítimas de bullying tendem a se isolar, a apresentar baixa autoestima e a se recusar a ir à escola por vezes justificando problemas de saúde, ressaltando-se dificuldades de relacionamento e sintomas de depressão. Os jovens agressivos podem, mais tarde, se envolver em criminalidade, uso de drogas e agressão em família. Já as testemunhas do bullying sofrem pela convivência em um ambiente escolar tenso e em que as relações interpessoais se deterioram, podendo estar frequentemente apreensivas e temerosas de que possam ser as próximas vítimas, afetando assim, a sua saúde. Compreender esses comportamentos, eventos e situações geradoras de bullying é um passo importante para uma postura promotora de saúde, por isso a proposta do PSE de Resende (Programa Saúde na Escola) é atuar em processos de educação e saúde, no que diz respeito ao bullying escolar, considerando a realidade do território, a singularidade dos educandos, e a acessibilidade. A escola é um espaço privilegiado para a construção da cidadania, onde o convívio respeitoso pode ser capaz de contribuir para a garantia dos Direitos Humanos no sentido de evitar as manifestações de violência e fomentar a construção de uma cultura de paz. Para que as práticas de educação e saúde tornem-se concretas, o PSE escolheu a metodologia de oficinas que busca privilegiar o compromisso pedagógico com a produção de práticas libertadoras, o que possibilita a construção do conhecimento e do trabalho participativo com os estudantes. O nome “oficina” instiga a pensar num processo de aprendizagem que envolve uma ação concreta, o trabalho com ferramentas e instrumentos. Parte-se do pressuposto que processos de aprendizagem significativos envolvem superação da separação entre teoria e prática, assim como entre quem ensina e quem aprende. A equipe do PSE propõe um processo de problematização sobre as situações que promovem e dificultam a vivência dos Direitos Humanos e da Cultura de Paz. Para isso é necessário partir do conhecimento que os estudantes já têm sobre a sua realidade. Como exemplo, a oficina “Dê um passo a frente”, desenvolvida com o ensino médio, teve o objetivo de promover a empatia e o respeito dentro do contexto da diferença, aumentar a conscientização sobre desigualdade de oportunidades na sociedade, a compreensão das minorias sociais ou grupos culturais e entender os Direitos Humanos. Num primeiro momento, em espaço aberto, criou-se um ambiente de trabalho colocando uma música suave. Os alunos receberam cartões contendo a descrição de personagens como: “Você é um jovem que se locomove em cadeira de rodas”; “Você é um usuário de drogas que mora com seus pais”; “Você é um homossexual gay ou lésbica”; “Você é um jovem morador de rua” e etc. Também personagens como “Você é filho de um fazendeiro rico do interior”; “Você é dono de uma empresa bem sucedida”; “Você é filho (a) do embaixador americano no Brasil”. No momento da abertura dos envelopes com os cartões, colocou-se uma música de suspense e os alunos sentaram-se no chão e incorporaram seus respectivos personagens por alguns minutos (em silêncio), enquanto algumas perguntas iam sendo feitas: Como foi a infância desse personagem? Como é sua vida cotidiana? Onde mora? Que tipo de estilo de vida tem? O que o deixa feliz? O que o deixa com medo? Etc. Os alunos fizeram uma linha, ficando um ao lado do outro, enquanto era lida uma lista de situações ou eventos como: “Você nunca teve uma dificuldade financeira grave”; “Você sente que a sua língua, religião e cultura são respeitadas na sociedade onde vive.”; “Você não tem medo de ser parado pela polícia”; “Você tem proteção social e médica quando precisa” e etc. Cada vez que respondiam sim, davam um passo à frente, caso contrário, ficavam onde estavam. Todos olhavam ao redor e viam as suas posições em relação ao outro. Após, cada um revelava o personagem que representou, opinando sobre o que aconteceu e como se sentiram com a atividade. Problematizou-se as questões levantadas, as observações feitas e o que eles aprenderam. Foram sugeridas algumas perguntas que contribuíram para fomentar a conversa: “Como se sentiram as pessoas que deram passos à frente?”; “Para aqueles que deram muitos passos à frente, quando começaram a perceber que outras pessoas estavam ficando para trás e que não davam tantos passos quanto eles, como se sentiram?”; “Será que o exercício espelha a sociedade de alguma maneira?”etc. Em seguida, foi passado um vídeo que fala sobre bullying e cyberbullying, suas práticas e consequências para que refletissem sobre o que viram e leram, fazendo uma relação com a atividade anterior. Após, assistiram ao vídeo com a música “Mais uma vez” do cantor e compositor Renato Russo. Por fim, foi feito um debate regrado com a temática e as situações apresentadas durante a oficina. Essas ações são inspiradas em valores como justiça, diversidade, respeito e solidariedade, que fortalecem a capacidade de reconhecer e efetuar trocas relacionais, que proporcionam aos educandos uma base estável e estimulam o seu potencial de resiliência ao longo da vida. Com as oficinas realizadas na escola, os jovens que se sentiram vítimas de bullying, foram orientados a procurarem a ajuda dos adultos, profissionais da escola, professores, orientadores, diretores, podendo ser encaminhados aos serviços de saúde em psicologia do PSE ou disponíveis nos postos de saúde, para que sejam capazes de solucionar os conflitos. Os professores também foram orientados a dar prosseguimento ao projeto durante as aulas. É a partir do apoio social recebido na escola, na família e na comunidade que o estudante que passou por situações de violência consegue tocar a vida para frente, construindo caminhos positivos e adotando um estilo de vida saudável, um comportamento de responsabilidade e cuidado mútuo. O sentimento de se sentir apoiado, precisa ser formado, mantido e renovado a cada dia.
Palavras-chave
Bullying- Escola- Saúde- Direitos Humanos
Referências
Bibliografia:
FANTE, C. A .Z.(2005). Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. Campinas: Verus ,2ª Ed.
Fonte: Revista Mundo Jovem. Bullying: quando a escola não é um paraíso. Março de 2006.P.2Desenvolvimento (Adaptada)
RISTUM, M. Bulying escolar (2010b). p.95-120. In: Assis, SG; CONSTANTINO, P.;AVANCI, J. (ORGS). Impactos da violência na escola: um diálogo com professores. Rio de Janeiro: Ministério da Educação/ Editora Fiocruz.
VIEIRA, M.EM (2013) Programa Saúde na Escola: A intersetorialidade em Movimento. Dissertação (Mestrado)- Universidade de Brasília, Instituto de Psicologia, Programa de pós-graduação em Processos de Desenvolvimento Humano e Saúde, 2013.